Musical sobre Fafá de Belém é auto popular sobre brasilidade amazônica, do tamanho certo para o sorriso da artista

  • 30/01/2026
(Foto: Reprodução)
Em 'Fafá de Belém – O musical', Lucinha Lins interpreta a cantora na atualidade, com os cabelos platinados e a energia mais reflexiva da maturidade Nil Caniné / Divulgação ♫ CRÍTICA DE MUSICAL DE TEATRO Título: Fafá de Belém – O musical Direção geral e idealização: Jô Santana Direção artística: Gustavo Gasparani Texto: Gustavo Gasparani e Eduardo Rieche Cotação: ★ ★ ★ ★ 1/2 ♬ A importância de Fafá de Belém na cena cultural do Brasil transcende a atuação da cantora paraense no campo musical. Projetada a partir de abril de 1975, com a veiculação do samba de roda “Filho da Bahia” (Walter Queiroz) na trilha sonora da novela “Gabriela” (TV Globo), Fafá teve participação destacada na cena política nacional da década de 1980 e, nos últimos anos, tem alcançado visibilidade social, alinhada com as pautas identitárias que defendem a valorização do povo e da cultura amazônica. Em cartaz no Rio de Janeiro (RJ) de quinta-feira a domingo, em temporada que se estenderá até 8 de março no Teatro Riachuelo, o musical sobre a vida da artista dá conta de expor as várias facetas de Fafá. “Fafá de Belém – O musical” é auto popular sobre fé e brasilidade amazônica. Trata-se do melhor espetáculo da série musical idealizada pelo produtor teatral Jô Santana, também creditado como diretor geral na ficha técnica. No posto de diretor artístico e de autor do texto, em escrita dividida com Eduardo Rieche, Gustavo Gasparani orquestrou musical fluente, brasileiro e colorido que captura o espectador ao longo de dois atos que, somados aos 15 minutos do intervalo de praxe em espetáculos do gênero, roçam três (agradáveis) horas. Pecado de todos os musicais sobre as vidas e obras de personalidades vivas, a ausência de visão crítica sobre a trajetória de Fafá de Belém jamais empana o brilho do espetáculo, escrito sob o estrito ponto de vista da artista. A boa premissa do texto é a filmagem de documentário sobre a vida de Fafá. A produção do filme é o pretexto cênico para que, através de conversas da artista com a diretora Yara Marques (personagem da cantora Naieme) e de filmagens de momentos emblemáticos da vida pessoal e da trajetória pública da artista, o musical repise os principais passos da caminhada de Fafá de Belém, partindo da Amazônia em rota que termina no mesmo ponto de partida, passando pela exposição da fé do povo paraense no Círio de Nazaré em cena em que se ouve o canto comovente de “Nossa Senhora” (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1993). Helga Nemetik esbanja vitalidade e voz em cena ao interpretar Fafá de Belém nos anos 1970 e 1980 Nil Caniné / Divulgação Para contar essa saga amazônica, três atrizes interpretam Maria de Fátima Palha de Figueiredo ao longo dos quase 70 anos de vida (a serem comemorados em 9 de agosto). Neta de Fafá, Laura Saab tem presença graciosa em cena ao personificar a Fafá moleca da infância e adolescência. Dona de farto material vocal, Helga Nemetik interpreta a Fafá brejeira da década de 1970 e a Fafá mais plural dos anos 1980, já liberta do estereótipo da cantora regional e sensual. Cantora e atriz, Lucinha Lins é a Fafá da maturidade, a Fafá dos dias de hoje e dos cabelos platinados. Tanto Helga Nemetik quanto Lucinha Lins oferecem interpretações convincentes sem que uma atriz anule a força da outra em cena. Lucinha Lins tem a energia da Fafá de hoje, ainda intensa, mas menos impulsiva e mais reflexiva. Bem caracterizada como Fafá, Lucinha consegue imprimir o tom de voz da artista e reproduz com precisão a gargalhada característica da artista. Helga Nemetik ainda precisa burilar a gargalhada (um tanto artificial com a atriz), mas injeta alegria e vitalidade em cena desde que aparece rodopiando ao som do canto do já mencionado samba de roda “Filho da Bahia”, irradiando a luz de Fafá em início de carreira conduzida pelo produtor Roberto Santana, visto no musical como um guardião atento da menina ingênua que veio de Belém (BA) para o Rio de Janeiro (RJ) tentar a sorte na música, até então cantada somente nos saraus da família e em apresentações de conjuntos da cidade natal. Gustavo Gasparani merece aplausos entusiásticos como dramaturgo e diretor. Além de inventiva, rendeu bela imagem cênica a ideia de personificar o saxofonista Raul Mascarenhas – pai da única filha de Fafá, Mariana – como o boto que, reza a lenda amazônica, se transforma em homem sedutor, vestido de branco e com chapéu. É quando Helga canta lindamente “Que me venha esse homem” (David Tygel sobre poema de Bruna Lombardi, 1979). O mesmo pode ser dito sobre a opção de Gasparani por fazer o público ouvir as canções mais populares da discografia de Fafá, como “Memórias” (Leonardo, 1986) e “Bandoleiro” (César Augusto e Fafá de Belém, 1995), nas vozes de transformistas de seios fartos – ilustração do fato de Fafá ser cantora adorada pela comunidade LGBTQIA+. O musical enfatiza a adesão total de Fafá à campanha de 1984 pelas eleições diretas para presidente do Brasil Nil Caniné / Divulgação Em momento mais denso, “Fafá de Belém – O musical” põe em cena o engajamento da artista na campanha pelas Diretas Já que tomou o Brasil em 1984. É quando o público ouve “Menestrel das Alagoas” (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1983) na interpretação certeira de Helga. O total envolvimento de Fafá naquele momento político do Brasil irritou gente poderosa que detonou série de fake news sobre a artista. Uma dessas pessoas, o jornalista Zózimo Barrozo do Amaral (1941 – 1997) – então poderoso colunista do “Jornal do Brasil” – é citado nominalmente no texto como o maestro de campanha negativa que gerou atribulações para Fafá, tirando inclusive a paz da vida familiar da artista. Em contrapartida, o texto omite o nome de Roberto Menescal – na época no posto de diretor artístico da gravadora Philips – como o executivo que aconselhou Fafá a voltar para Belém (PA) no início dos anos 1980, pouco antes de a cantora estourar em 1982 com a gravação de “Bilhete” (Ivan Lins e Vitor Martins, 1980), canção dolorida sobre separação, ouvida na voz de Lucinha Lins. A propósito, as personificações em cena de Menescal, Max Pierre (outro executivo da indústria fonográfica com quem Fafá travou embate na década de 1980) e do DJ Zé Pedro (articulador do álbum que trouxe a cantora de volta ao mercado fonográfico em 2015 após ausência de dez anos) resultam fakes para quem conhece essas pessoas na vida real. São meros detalhes de musical arrematado com o canto coletivo da toada amazônica “Vermelho” (Chico da Silva, 1996), fecho contagiante desse grande espetáculo produzido do tamanho certo para o sorriso de Fafá de Belém. Neta da cantora, Laura Saab personifica a Fafá moleca da infância e adolescência no musical em cartaz até 8 de março no Rio de Janeiro Nil Caniné / Divulgação

FONTE: https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2026/01/30/musical-sobre-fafa-de-belem-e-auto-popular-sobre-brasilidade-amazonica-do-tamanho-certo-para-o-sorriso-da-artista.ghtml


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