'Sonhos de Trem' se vale de belas imagens para compensar história pouco envolvente; g1 já viu

  • 12/03/2026
(Foto: Reprodução)
Assim que começa "Sonhos de Trem", filme que já está disponível na Netflix desde 21 de novembro e chegou a ser exibido em alguns cinemas (para se tornar elegível para o Oscar), o seu ponto forte já fica claro logo na sua primeira cena: cada imagem é de uma beleza incrível e hipnótica que não dá para resistir. Dá para tirar um quadro do longa, pedir para emoldurar e colocar na parede da sala de estar ou num quarto que vai ficar ótimo. O filme deslumbra do primeiro ao último fotograma, com belíssimos enquadramentos, ótimo uso de cores e uma iluminação utilizada sempre na intensidade adequada que as cenas exigem. Só que tanta beleza não é suficiente para esconder o fato de que o longa traz uma história que, apesar de interessante, é contada da maneira mais convencional possível. Ambientada no ínicio do século 20, a trama é centrada em Robert Grainier (Joel Edgerton), um lenhador cuja vida se resume a trabalhar cortando árvores em diversas florestas, além de ajudar na construção de pontes para ferrovias. Até que, um dia, conhece Gladys Olding (Felicity Jones) e se apaixona por ela. Os dois se casam, têm uma filha e constroem uma casa à beira de um rio. Assista ao trailer do filme "Sonhos de Trem" Granier continua sua vida de lenhador e, volta e meia, deixa sua família para realizar seu ofício em outras regiões bem distantes de casa. Só que, devido a duas experiências inesperadas e traumáticas, Robert tem sua rotina alterada e passa a questionar a razão de sua existência Conexão com a natureza “Sonhos de Trem” adota uma condução mais cadenciada para fazer o espectador refletir sobre a relação entre o homem e a natureza. Por isso, o diretor Clint Bentley, roteirista de “Sing Sing”, se vale de takes mais lentos, onde a câmera se move mais devagar diante de seu elenco ou das belas locações que surgem no filme para causar uma maior contemplação do espectador diante de suas imagens. O efeito lembra um pouco o cinema de Terrence Malick, de filmes como “A Árvore da Vida” ou “Além da Linha Vermelha”, que também busca discutir essa reflexão. Claro que há um abismo bem grande entre Bentley e Mallick em termos de talento. Mas, mesmo assim, o resultado é bem eficiente. Especialmente para quem gosta de pensar sobre o que fazemos enquanto estamos nesse mundo. Gladys (Felicity Jones) e Robert (Joel Edgerton) passeiam com a filha numa das cenas de 'Sonhos de Trem' Divulgação Tanto que Bentley, também autor do roteiro ao lado de Greg Kwedar (diretor de “Sing Sing”), discute como a natureza é explorada de forma predatória através de um personagem que trabalha ao lado do protagonista e demonstra não se importar em cortar árvores porque acredita que elas vão crescer novamente e renovar as que são derrubadas. A discussão é vista de maneira discreta na trama, porém revela o cuidado que o diretor-roteirista tem com assuntos como meio ambiente. Outro ponto curioso é como o filme (adaptado de um livro do mesmo nome, escrito por Denis Johnson) mostra situações e eventos históricos do início do século 20 através do personagem vivido por Edgerton. Assim, as duas grandes guerras mundiais e a ida do homem ao espaço, por exemplo, são reveladas pelo olhar do protagonista, que tenta compreender as mudanças que estão acontecendo ao seu redor, ainda que de forma mais distanciada por sentir que não faz parte daquele universo. Tudo isso é fortalecido pelo ótimo trabalho do diretor de fotografia, o brasileiro Adolpho Veloso. Ele cria imagens incríveis que, quando o espectador acha que certa cena é a mais bela do filme, Veloso surpreende e cria uma ainda mais bonita mais adiante na trama. Até uma sequência que resulta na morte de um dos personagens tem tanta beleza que é impossível não ficar impressionado com o que obteve nessa produção. Não é à toa que ele foi indicado ao Oscar 2026 de Melhor Fotografia. Se vencer, além de justa, será a primeira vez que um brasileiro ganha nessa categoria. Só que, mesmo com tanta beleza, o filme falha em cativar além da parte técnica/estética. A direção e o roteiro não conseguem sair do lugar comum e as situações mostradas no longa são interessantes, porém pouco empolgam. Apenas imagens estonteantes não são o suficiente para construir uma boa obra cinematográfica. E seus realizadores pareceram não compreender isso. Robert (Joel Edgerton) e Gladys (Felicity Jones) num momento romântico de 'Sonhos de Trem' Divulgação Força do elenco Pelo menos, “Sonhos de Trem” também chama a atenção pela reunião de ótimos atores e atrizes em seu elenco. O principal destaque é mesmo Joel Edgerton como o introvertido Robert Granier. O ator-diretor sabe como dar o tom certo para o homem rústico que se retrai em relação aos outros que passam por sua vida, mas que revela suas emoções apenas à mulher que ama e sua filha. Edgerton sabe como construir personagens com esse perfil e já teve atuações até melhores, como em “Loving: Uma História de Amor” (2016). Mas ainda assim, ele dá conta do recado e consegue manter o espectador focado em seu desempenho. Menos sorte teve Felicity Jones, que pouco tem a oferecer como Gladys. Embora convença como a esposa apaixonada pelo protagonista, a atriz fica praticamente presa num papel onde quase nada de excepcional acontece com ela. Pelo menos ela demonstra uma boa química com Edgerton. William H. Macy vive um lenhador veterano no filme 'Sonhos de Trem' Divulgação Quem aproveita bem o pouco tempo de tela que tem é Wiliam H. Macy. O ator de filmes como “Fargo”, “Magnólia” e “O Sobrevivente” tem alguns dos melhores momentos do filme como Arn Peeples, um veterano lenhador que se destaca pelo seu mau humor e por seus pensamentos a respeito do cuidado com a natureza. Suas cenas só comprovam ainda mais seu talento que vem mostrando ao longo dos anos. Além de Macy, o filme também conta com a pequena, mas importante participação de Kerry Condon ("F1: O Filme") como uma guarda florestal que se torna confidente do personagem de Edgerton. Indicado a quatro Oscars (Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Canção Original e Melhor Fotografia – já citada anteriormente), “Sonhos de Trem” realmente arrebata com a força e a beleza de suas imagens. Só precisava ter um pouco mais de potência para se tornar mais relevante. De qualquer forma, é uma produção sensível que pode deixar o espectador emocionado com o espetáculo visual que aparece na tela e com a mensagem de que a vida é como um trem. E que é preciso saber como apreciar a sua viagem antes do ponto de chegada. Cartela resenha crítica g1 Arte/g1

FONTE: https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2026/03/12/sonhos-de-trem-se-vale-de-belas-imagens-para-compensar-historia-pouco-envolvente-g1-ja-viu.ghtml


#Compartilhe

Aplicativos


Locutor no Ar

Anunciantes